Antes de ser Mãe eu era Eu

Gisela Hasparyk
5 min readMay 24, 2019

A maternidade, a perda da identidade e o caminho sem volta.

O meu primeiro ano como mãe foi um dos maiores desafios que já enfrentei como humana e enquanto mulher.

Acredito que a maternidade faz brotar o melhor de nós e nos desperta para os nossos propósitos. Vejo que é um caminho de profundo autoconhecimento e transformação. Mas a aceitação desta nova condição pode ser muito dolorosa.

Ser mãe abalou a minha identidade. Num primeiro momento, levou-me a um auge de autenticidade, mas, logo a seguir, quase à completa anulação. Felizmente, tudo é um processo e o meu encontro com um novo Eu já começa a ficar mais nítido.

Ser mãe não é sempre fácil

O ano que precedeu o nascimento do meu primeiro filho foi um dos melhores anos da minha vida. Nunca antes as minhas ações estiveram tão coerentes com as minhas intenções. Tinha objetivos claros e bem definidos e tive muitas conquistas neste ano.

Inspirada neste exercício da psicoterapeuta Cláudia Giovani, havia categorizado a minha vida em cinco áreas: pessoal, profissional, social, espiritual, lazer. Cada área tinha o seu respectivo foco e intenções. Bastou listar o que almejava em cada área que a vida parecia fluir magicamente. Em 2017, ano da minha gravidez, foram só conquistas em todas as áreas.

Tinha a certeza que o próximo ano iria ser tão fácil, leve e simples quanto o último. Havia descoberto a chave para o meu bem-estar.

Mas falhei redondamente.

Em 2018, logo no início do ano, assim que meu filho nasceu, eu me perdi e me anulei. Não sabia quem eu era. Sequer poderia pensar em qualquer categorização. Esqueci o significado da palavra rotina. Não concretizei nem meio objetivo.

Estava acostumada a viajar pelo menos um fim de semana por mês, a fazer uma viagem intercontinental por ano e, ainda, dar uma voltinha na Europa de vez em quando (eu vivo em Portugal, ir daqui a França é como um mineiro ir à praia). Mas acabei ficando enfurnada em casa.

Se antes dava 6 a 8 horas para dançar Ballet Clássico e fazer workshops de danças de salão, num ano dei apenas duas piruetas.

Escrever? Produzir textos científicos? Editar livros? Fazer revisões? Se ao menos as ideias não se perdessem pelo meio do caminho…

Vida social, então… foi para esquecer. A maternidade é uma grande solidão. O resto do mundo decide sumir quando você mais precisa.

Aulas de yoga? Fui a uma…

Acredito que somos o que fazemos. E eu não estava fazendo NADA do que eu fazia antes.

Portanto, eu não era eu mesma.

Não podia imaginar a dimensão de uma adaptação de vida a dois sendo atropelada por uma vida a três. Não tinha noção da energia necessária para dar vida a um novo ser, que depende sobretudo de você.

Não fazia ideia que com um filho seria muito difícil trabalhar e gerar rendimentos, ainda por cima tentando iniciar uma nova jornada num mundo digital completamente por descobrir.

Não poderia calcular o quão difícil seria e o quanto tempo tomaria a procura de um lar — a casa em que habitávamos era de aluguer temporário.

Não poderia prever nada disso. Não foi por falta de aviso, mas nem em sonhos eu poderia imaginar uma mudança de vida tão radical e contraditória. Muitos me disseram: “Sua vida nunca mais será a mesma. Aproveita enquanto está grávida!”— Mas quem pode viver de acordo com conselhos? Sempre precisei bater a cabeça para aprender.

No meu primeiro ano como mãe, não fiz praticamente nada por mim. Me doei completamente para o meu filho e para minha família. Me doei de corpo e alma. Usei todas as minhas forças, minhas aptidões profissionais e capacidades pragmáticas para criar as bases sólidas da nossa família. E todo o resto de tempo livre que tinha, ofereci, sem sucesso, à tentativa de voltar a ser uma mulher autônoma com o seu próprio tempo e as suas próprias ambições.

Por dois anos, todos os meus esforços foram para gerir a casa, o dinheiro que tínhamos e, pelo meio, ainda tentava encontrar novas formas de rendimento através de um trabalho digital — foi assim que me tornei especialista nas técnicas de home office com filho (pode ler mais sobre como trabalho a partir de casa aqui).

Tenho sido bem-sucedida nestas tarefas, mas continuo a não fazer nem ¼ das atividades que me fazem sentir estar a viver uma vida realmente plena.

E está tudo certo

Acredito que estava (e estou) a fazer o que tinha que fazer. Que a construção de uma base familiar sólida e de uma vida financeira estável seriam imprescindíveis para que pudéssemos todos ter tempo para tudo num futuro próximo.

Esta corrida gerou muito stress. Sentia que o dia em que iriamos atingir este patamar nunca iria chegar.

Entretanto a vida foi se organizando e se estabilizando. O tempo vai se esticando cada vez mais e vou tendo tempo para lembrar de fazer coisas por mim, ou seja, pouco a pouco, vou voltando a me conectar com a minha essência.

Hoje, quase dois anos depois, finalmente, vivemos numa casa interessante e num local favorável. Finalmente atingimos alguma estabilidade financeira. Finalmente temos uma rotina previsível, o que ajuda muito a organizar melhor o tempo para trabalho e o tempo para mim mesma.

Hoje já não preciso dar mil e uma voltas para tentar monetizar os meus saberes. Já consigo deixar o meu filho sob o cuidado de outras pessoas — alinhadas com os meus valores — me sentindo segura. O estado de hiperalerta, próprio dos primeiros tempos da maternidade, vai saindo de cena e dando espaço para a criatividade.

Hoje posso começar a cuidar de mim e a tentar voltar a sentir o meu próprio corpo e a dançar. Começo a ter espaço para me dedicar a tarefas sem perder o fio à meada, pois tenho tempo e espaço para concretizá-las.

Hoje sinto que posso sentar, relaxar e ler! Mesmo não sabendo o que as imperfeições da vida nos reservam para amanhã.

O melhor de mim

Por mais que o contexto do meu primeiro ano como mãe me tentasse a desacreditar, sinto que ser mãe impulsiona-me a ir de encontro à minha maior obra criativa e a ser o melhor de mim.

No início, pode parecer que nada vai dar certo, podemos achar que não temos o dom de ser mãe. Podemos achar que estamos nos apagando para outra pessoa brilhar. Mas tudo é uma enorme ilusão.

Se na maternidade nos perdermos, trilhar o caminho em nosso próprio reencontro é das mais belas viagens que alguma vez faremos como mulheres, afinal, encontramos partes de nós que jamais conheceríamos de outro modo.

Hoje posso escrever que sou mãe com todas as letras. E, ainda, que sou quem sempre fui, numa melhor versão.

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